CANTO DA ANA

Vivências e crenças da Ana

Meus amantes literários

domingo, 29 de abril de 2012

Meu primeiro relacionamento com
um livro foi na infância.  Aos 6 anos eu
devorei o “Coelhinho Sapeca”, primeiro livro que ganhei na minha vida e
carreguei comigo até a idade adulta.

Daí pra frente, comecei a flertar
com vários livros.  Gostava tanto que lia
um e emendava em outro.  Na adolescência
gostava tanto de namorar que virei meio “piriguete” de leitura e pegava
coleções como a Vagalume.  Nos
apaixonamos às primeiras leituras e a pegação virou um caso de amor.  Curti quase todos, mas queria mudar de
paquera. Até que entrei na biblioteca municipal e vi pretendentes
maravilhosos.  Pisquei para o “Diário de
Anne Frank” e nos curtimos bastante.  Quando a relação acabou, chorei muito.  Mas é leitura que segue e outros casos
vieram. 

No Ensino Médio, no auge a
liberação do meu sexo-literário, comia Agatha Christie e Sidney Sheldon sem
qualquer pudor, em qualquer lugar. Acabei traindo os dois com Irving Wallace em
“Os sete minutos” e foi assustador.  Na
faculdade peguei João Ubaldo Ribeiro na “Casa dos Budas Ditosos” e no
“Farol”.  Nossa, que relação tensa”!

Peguei um pouco Paulo Coelho, mas
foi mais ralação que relação.  A gente se
entendeu bem com “Verônica decide morrer”  em “11 minutos”.  Tentei com “Valquírias”, “Brida”, “O
alquimista”, mas o “Zahir” e a “Bruxa de Portobello” conspiraram contra
nós.  Eles são horríveis!!!

Na maturidade me deparei com a
moda de pegar vampiros, bruxos  e
guerreiros sobrenaturais.  Nem tentei!
Comecei a refletir que a minha infância tinha ofertas bem mais interessantes
que a infância de hoje.  Senti saudades
das histórias que não peguei e vez ou outra fico com Monteiro Lobato no seu
“Sítio do Picapau Amarelo”.  Ao mesmo
tempo vou ao extremo e faço “Amor no tempo do cólera” com Gabriel García
Marquez” e me sinto com “100 anos de solidão”.

Quanto mais velha vou ficando,
mais adoro colecionar amantes.  Ontem
passei a noite com o “Diabo” de Tolstoi e em arrependi de não ter feito um ménage a troi com Saramago.  Um dia terei uma biblioteca com todos os meus
casos ao alcance de minhas mãos, com quem passarei as noites tendo orgasmos
múltiplos e dormiremos depois do prazer.

Não aceito cobrança!!

domingo, 1 de abril de 2012

Na TPM a língua da mulher fica afiadíssima. Pelo menos eu sou assim, um ser atormentado com a chegada da Digníssima.

A minha chegou ontem e a TPM virou TM. Estressada, chorona, verdadeira e bipolar. Quem me provoca me atura, lei da menstruação. Até com minha mãe mantenho uma distância saudável. Mas dias atrás me apareceu um infeliz cobrando atenção…

Não me encontro com esta pessoa há meses. Perdoei mentiras, garanti amizade e respondo a todas as mensagens pelo celular. Mas me cobrar encontros com segundas intenções e me encher o saco com chantagem emocional nem no dia em que eu chegar ao nirvana.

Semana passada esta criatura pseudocarente - e verdadeiramente chato - esteve prestes a perder o pouco que disponibilizei para o nosso relacionamento. Não, eu não estou resolvendo a questão com cólica. Está se esgotando a paciência que venho alimentando a duras penas.

Queria que eu fosse a Saquarema vê-lo. Nem quando estava com ele me desloquei mais de 4 km para encontra-lo. Reclamou que eu não queria mais saber dele, que estava magoada, que ele adora estar comigo. Demorei umas horas para retrucar, esperei a Novalgina fazer efeito! Até que perguntei: “o que você quer de mim? O que tem para me oferecer?” Sua resposta? “Nada!” “Então não me cobra nada!” Ele ficou furioso, inacreditável. Na verdade meu amigo desbotado quer sexo sem compromisso, quer papo ameno e de sacanagem, quer ouvir elogio e declaração de amor.

Adoro estas coisas, mas menstruada, com dor, cansada e irritada, preciso desabafar minha rotina, pedir conselho e ajuda, quero carinho através do simples sacrifício de me ouvir. Porra, não é meu amigo? Desabei com meu cansaço, com a rotina puxada, com a necessidade de arrumar alguém para consertar a TV e a antena parabólica, trocar a torneira da cozinha, a mangueira do botijão de gás, levar o carro ao mecânico. Deixei claro que não estava pedindo nada a ele. A resposta foi OK e o sumiço básico.

Se fosse o amor da minha vida ou teria me ouvido ou teria me deprimido. Mas como não tem nada de mim, ele só consegue me irritar quando eu estou menstruada porque qualquer coisa pode me irritar.

Sim, precisava de um companheiro quando ele me cobrou sexo. Precisava de um amigo quando ele cobrou papo de sacanagem. Queria uma ajuda quando ele me cobrou atenção. Não tenho saco de ir a vós, cara pálida! Ainda mais se tu não sabes o caminho de vir a mim.

No meu refúgio

domingo, 4 de março de 2012

Hoje fui à praia sozinha. Não seria lá um dos programas mais divertidos para se fazer sozinho. Mas hoje não fiz questão de companhia melhor que a minha mesma e eu estava precisando ficar mais comigo além da cama, onde paro para me dar um pouco de atenção na hora de dormir.

Meio-dia, sol a pino, alguns poucos gatos pingados espalhados por aquela imensidão de areia na orla do oceano. Pensei que ia me sentir sozinha e iria embora em pouco tempo. Doce engano! Entrei na casa de Iemanjá meio temerosa com suas ondas sempre agitadas, mas por alguns minutos ela me deixou mergulhar e me temperar do seu sal sagrado. Senti meu corpo mais leve e me deixei jogar na cadeira, diante de um calor que me acolheu com suaves brisas que traziam respingos frescos do mar. Nem senti o sol dourar minha pele.

Fiquei por muito tempo meditando diante daqueles contrastes de cores: o mar azul-esverdeado com suas espumas brancas correndo e voltando na areia que cintilava devido aos raios de sol. Sobre tudo isso, nos olhando de cima, um céu intensamente azul, com algumas manchas brancas que mais pareciam massa corrida quase seca sendo alisada numa parece de fundo colorido. Isso assim por uns minutos porque logo as nuvens formavam ondas como se o mar tivesse subido. E ao fundo um veleiro que sumiu na “poeira” que o mar lançava para o céu nevoando todo o lugar.

O barulho do mar me fez desligar por alguns momentos, sentia como se as ondas estivessem entrando no meu corpo e saindo com as coisas que não conseguem se equilibrar dentro de mim.

Adoro a praia do Dentinho. Esta foi a segunda experiência divina que tive lá. A experiência de sentir em mim a natureza, me sentir realmente como parte daquilo tudo, com a mesma proporção de importância. E sem fumar qualquer baseado pois não me baseio nisso para viajar.

Pensei pouco na vida. Bem menos do que planejava na estrada indo para lá. Pensei em quase nada. O que me fez muito bem, muito leve e muito feliz.

Voltei para casa renovada. Sem peso na consciência por não te-la usado muito. Sem a preguiça que a praia me causa e sem a ardência que a queimadura de sol provoca. Melhor ainda: voltei certa de ter encontrado meu refúgio, lugar onde cada um tem de ter fora da gente para encontrar a gente mesmo, quando se deixa levar desequilibrado por uma onda.

Deixar a vida levar

sábado, 28 de janeiro de 2012

Estou conversando com um grande amigo ao som de chuva, que sempre me inspira. Ele está resolvendo umas questões da vida e veio dividir comigo. Me sinto honrada de poder partilhar da vida desta grande pessoa, quem eu amo muito. Me trouxe um saco de pontos de interrogação e me coube ajuda-lo a transformar em pontos de exclamação. Os que não conseguimos desentortar, jogamos fora e só aproveitamos os pontos. Ainda assim ainda não temos certeza de nada e começamos a nos interrogar se precisamos ter certeza de tudo. Se nos propomos a deixar a vida nos levar, ou seja, deixar que Deus nos guie, estamos correndo o bem do risco.

Diante disso pensei em mim, nos nós fortes que dei na minha vida e que hoje tento desatar. Somos criados a amarrar tantas idéias, sonhos, desejos, atitudes para não sofrermos, só que não sabemos julgar o que realmente faz bem ou mal antes que as coisas aconteçam. A vida é uma linha cruzada, uma cama de gato. E para piorar, a gente ainda dá nó!

Estou trabalhando a concepção de não pensar no que deveria ou não fazer, nos cuidados e restrições que poderiam fazer as coisas darem certo, falar palavras que não machuquem. Decidi tentar ser a louca vivente a ser a prudente sobrevivente. Se der errado é porque não era para dar certo. Deixei a vida me levar e me levou para onde deveria ir mesmo. Devo chorar, devo doer, vou ter raiva e melancolia, nada novo… E daí? Se eu não correr o risco vou perder a chance de saber se devo sorrir, gozar e feliz.

Ele me perguntou se senti tirando um fardo das costas. Está ficando mais leve, mas ainda não me livrei de todos os nós. Nem tenho pretensão de me livrar, com alguns vou aprender a viver. Serão aliados e não inimigos.

Tomar certas decisões na vida é colocar-se em risco. Falei para ele correr o risco sem muitas restrições. Na prática nada disso funciona. O que se deve ter sempre desatado é o respeito por si próprio, ou seja, conheça a si para saber o que suporta. E no mais, deixe a vida te levar.

FALA!!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Fala! Fala tudo que tem de ser falado! Fala tudo, joga a bosta no ventilador, abra o coração, revele-se com as palavras. Fala! Vai guardar para se preservar de uma resposta e nunca vai ter uma resposta. Eu as prefiro do jeito que elas vierem ou tiverem que ser, mas que venham. Esperar pela hora certa é hipocrisia, porque cabe a gente fazer a hora. Fala de uma vez e se não for o momento, se não era a tal hora, já foi feita a hora.

O que guardei me rendeu uma gastrite e uma urticária. O silêncio me garantiu o conformismo das minhas próprias conjecturas, mas não me deu a solução dos problemas. Hoje resolvi falar. Ainda uso da doçura em boa parte das falas, eu prefiro ser assim, mas eu falo. Sinto menos dor no estômago e uso menos antialérgico. Eu falo da doçura - e pode parecer perdido no texto - porque às vezes a fala tem de ser dura. Ser objetivo e verdadeiro pode soar duro. Mas não deixe de falar. Peça desculpas depois, ponha panos quentes onde ficou doído, mas fale.

E se falar besteira - quem não sabe falar, ou tem pouca experiência, ou pouca sensibilidade ou é o dono da verdade absoluta - saiba ouvir o que falou, repare e conserte com a mesma coragem que teve para falar. Eu já ouvi muita besteira, tanto da minha boca como da dos outros. Mas só o que eu escuto de mim é possível reparar. É mais um exercício da fala, mas nem por isso deixe de falar.

Eu estou em processo de adaptação. Tenho muita coisa presa ainda. Talvez na ilusão da tal hora certa que pode ser tardia e completamente errada. As palavras me expõem e me amedrontam, mas me libertam. O negócio é saber como lidar com essa tal liberdade. Não é tão simples assim…

Se você falar, eu vou saber te ouvir. Mas escute bem o que eu vou te falar, eu estarei me expondo e me libertando.

Aventura radical na BR 101

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Olha eu mais uma vez na BR 101… O destino me leva para esta pista e esta pista me leva a destinos diversos. Desta vez fui para mais perto que Guarapari, mas a aventura foi muito mais radical. Desta vez fui a Casimiro de Abreu.

Devido a problemas na documentação do Nem, meu ex-carro Uno branquinho, eu tive de leva-lo para a vistoria. Nem vou entrar em detalhes desta transação porque isso mexe com tanta coisa e tanta gente que eu posso ser chata ou ser presa… Ou ser morta!

Saí de Araruama por volta das 7 horas da manhã da segunda-feira. Primeiro dia oficial das minhas férias… Não queria ir dirigindo, queria dormir e contava com o despachante para levar o carro. Mas apareceu um outro e eu tive de conduzir o Nem. Claro que temos certa intimidade, mas depois de quase um ano senti meu menino mais duro, mais desalinhado. Meu menino está mais velho…

Bom, peguei a estrada com chuva. São Vicente, chuva. Silva Jardim, mais chuva. BR 101, dilúvio, curvas, caminhões, água no pára-brisa e Tim Maia bem alto tocando no rádio. Precisava me distrair para não enlouquecer de tanto medo. Quando passava por um buraco e o carro tremelicava eu batia um rápido papo com Deus: Guia porque eu não consigo segurar este volante sozinha. A viagem foi longa, decididamente Casimiro não é logo ali.

Mas o que deixou com raiva foi o despachante. Não só a atitude dele, mas a pessoa asquerosa que ele é. Malandro velho que acha que consegue o que quiser, seguiu viagem e não teve a decência de ficar por perto caso eu precisasse de uma ajuda numa estrada estranha embaixo de chuva. Eu cantava, conversava com Deus e xingava aquele filho de uma mulher que vendia o corpo para o prazer alheio. (hoje não estou afim de falar palavrão, tá?). Cheguei ao Detran trêmula de nervoso, cuspindo marimbondo e reclamando na frente de um monte de gente que o nojento era muito cavalheiro, que não podia contar com um homem como ele. Não sou melhor que ninguém, mas dou sorte de encontrar homens cavalheiros. Ter de lidar com um cavalo é coisa para veterinário e domador. Eu não dou pra coisa.

Tudo resolvido, voltei para Araruama com pouca chuva, muito som e Deus comigo. Só dá para contar com ele mesmo.

A fase BR 101

sábado, 26 de novembro de 2011

Semana retrasada fiz uma viagem descongestionante para Guarapari com uma amiga e minha prima. Deu uma boa aliviada na congestão emocional que o trabalho estava me causando, mas o resultado da empreitada foi muito mais valioso que o objetivo inicial.

Para começar, a BR 101 merece um texto só para ela. Foram sete horas na estrada, quatro e meia na BR 101, nas suas curvas, nos seus buracos, nos seus estresses e no seu verde. A estrada tem muita curva, nada muito assustador, só na quantidade. Tinha hora que dava um medo de derrapar ou medo de derraparem atrás de mim ou na minha frente. Os buracos na ida foram controláveis, mas na volta desnivelavam toda a pista. Incrível a diferença de um lado e outro da pista. Pista estressada e que estressa qualquer motorista. Cinquenta por cento dos automóveis eram caminhões: grandes, pequenos, abertos, fechados. Que levavam papelões, madeira, ferro, caixas, frutas, carros e caminhões. Só faltou ver caminhões levando gente, mas vi muita gente levando caminhão, na maioria gente boa, que corta o Brasil cortando estradas, cortando outros carros e caminhões, correndo risco e colocando outros em risco, correndo atrás do sustento de uma forma solitária. Mas os piores são os motoristas de carros pequenos, porém potentes e abusados. Eles cortam carros, caminhões, o vento e fazem loucuras nas curvas, diante da surpresa de outros carros e caminhões do lado contrário, que fazem a mesma coisa. Gente, eu ficava imaginando se houvesse uma colisão todos que estivessem perto colidiriam também. Chamava Deus, chamava São Jorge e acordava minhas companheiras para me fazerem companhia numa piada ou papo besta. Diante de tanto verde, montanhas, céu azul e uma repetição de cenário deslumbrante e tranqüilizante, qualquer um dormiria. Sim, naquele dia a estrada era verde. Passamos por áreas de bananais, de coqueiros, de canaviais, de eucaliptos, de laranjais e de outras vegetações que eu nem me lembro. Tudo muito uniforme e alinhado, brilhante com os raios de sol num céu incrivelmente azul. Tinha hora que eu só me desligava daquilo quando um caminhão passava por mim às disparadas fazendo tremer o carro e minha atenção.

A chegada foi uma sensação de alívio intestinal - no sentido conotativo -, mas o corpo tremia horrores.

A volta foi mais experiente (risos). Experiência no estresse e no cansaço. Uma coisa me chamou a atenção tanto em Guarapari quanto na estrada: Toyota Corolla só pode ser comprado no sistema “compre um leve dois”. (O IPVA mais barato deve ajudar bastante também… ). Passamos por, no mínimo, uns cinqüenta até a divisa com o Rio de Janeiro. Tanto carro de 80 mil reais desfilando pelo Espírito Santo e nós não encontramos nosso “Homem Bem de Vida” para nos dar uma vidinha boa.

Ah, teve também a maldita gasolina batizada que colocamos no carro e que não deixou o Lord Blanco se desenvolver. Neste posto a caixa d’água ficava na árvore, tenho foto pra provar. Quando chegamos a Campos, paramos para comer e quando chegamos a São Pedro eu me senti em casa. Mas quando eu cheguei em casa eu caí de dores, de tremura e de alegria porque fiz minha primeira viagem dirigindo, passei por emoções enormes nas estradas do meu Brasil e sobrevivi.

Em tempo: tinha de recordar as sábias palavras da minha prima: têm fases na vida que parecem a BR 101 - são muito longas!!

O palavrão cura!

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Nem pense que eu vou me conter a falar palavrão com letras iniciais e pontinho. Vou usar palavras completas sempre que necessário citar um palavrão. Palavra dita chula, de mal gosto, que normalmente ofende alguém, mexe com os brios e acaba com a reputação e a salvação de uma pessoa. Tem gente que adora declamar este discurso estúpido, mas quando dá uma topada no pé da cama grita com vontade aquele palavrão mais cabeludo e lá dentro, bem no fundo onde ninguém pode ver, o hipócrita tem certeza que parte da dor passou. Sim, falar palavrão é relaxante, é uma terapia alternativa que funciona. E melhor, não é paliativo, ele cura mesmo. Cura as dores do corpo e da alma.

Este texto surgiu de algumas situações recentes que vivi por conta da apologia que faço ao palavrão e que divulgo sem nenhum pudor. O primeiro caso vem de uma conversa com um amigo muito católico que tentou me convencer a dar Glória! quando acontecesse ou desse alguma coisa errada. Tentou, mas não conseguiu. Depois de ouvir toda ladainha, respondi com um belo Porra Nenhuma acompanhado de uma boa gargalhada. Gente, Deus perdoa!

É como estar com raiva de uma mulherzinha Filha da Puta que está nos devendo um dinheiro. Só chamar de caloteira não satisfaz. E a Piranha que está com o homem que a gente quer? Vai se Fuder, mas não com meu homem. Aquele Viado que deu um bolo, Puta Que Pariu, vou defender chamando o cara de vacilão? Vai pro Caralho ele e quem pensa que eu tenho de ser educadinha. Calma aí, toquei num ponto importante, educada eu sou e muito: tenho até pós-graduação. Tive de falar muitas palavras bonitas para chegar aí. Os palavrões não me exigiram tanto.

Outro caso interessante foi na praia com minhas amigas. Éramos quatro naquele momento e eu, com toda minha eloqüência, quase gritei as maravilhas de se falar palavrão na hora certa e de como grandes escritores como Veríssimo e Milôr fizeram referência e reverência a este estilo chulamente peculiar de expressar sentimentos. Neste momento um homem saiu da multidão jogada na areia para me defender. Se ele não fumasse e me atraísse poderia dizer que teria flertado por conta do palavrão.

Olha mais um benefício do palavrão: ele une as pessoas, ele é sincero, ele transparece um verdadeiro sentimento e pode ser um cupido.

Meu repertório é vasto, porém faço uso moderado dependendo da situação. No trabalho, por exemplo, quando não posso mandar um aluno chato ir à Merda, corro até um cômodo comum de professores e solto um sonoro e prolongado Caraaaaaaaaaaaaaaalho, assim, nessa proporção. Eu volto para a aula com vontade de dar um beijo na peste.

Em lugares externos também doso o uso, pode soar vulgar. Tem muita gente que precisa ver meu lado mulherzinha comportada e eu não devo decepciona-las por uma série de motivos.

Num papo-paquera com um homem também não uso de imediato encontro. Aos poucos solto um aqui e outro acolá até a criança se acostumar.

Assim sendo, deu para perceber que tenho repertório mas não vivo cantando estas músicas fora do palco. Se de 10 palavras 12 forem palavras (ditas e gesticuladas), o negócio fica realmente baixo nível e a intenção é enaltecer o poder de um palavrão bem colocado, bem gritado, sem sair do salto.

Lembranças

domingo, 30 de outubro de 2011

Hoje passei o dia em Rio das Ostras com grandes amigos. Eu me descobri um poder enorme de me divertir em qualquer situação e isso torna qualquer passeio muito agradável. Mas Rio das Ostras é uma terra muito especial, que me traz lembranças que me fazer desconectar da minha diversão natural. Muitas vezes me peguei dando um passeio num passado recente e vivenciando vários momentos que vivi lá.

Hoje ter estas lembranças não é mais o suplício de meses atrás, mas mexe comigo. A calçada onde rolou o primeiro beijo, as fotos na baleia e no píer, o restaurante, a padaria onde assistimos a final da copa, a estrada, a temperatura, a roupa, o papo, os beijos. Veio tudo como uma cachoeira de águas frias. Mas não na distância que eu queria ver, as águas chegaram a molhar meus pés e eu corri para me afastar. Preciso manter a distância sadia do que não presta mais.

Você deve estar calculando que este passeio não me fez bem, apesar de ter me divertido. Tudo me fez bem, mesmo as lembranças em pequenas cascatas e com toda clareza das águas cristalinas. Dizer que me diverti com elas é mentira, mas refleti muito sobre o que há de se apagar desta memória e que seja levado para bem longe pelo curso das águas e congelado na sua frieza.

Espero voltar lá para fazer novas lembranças de coisas que não quero que as águas levem

Acender a luz

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O que poderia fazer uma mulher às margens dos sessenta anos, num relacionamento de décadas que deu frutos e subfrutos, querer chutar o balde e mudar de vida radicalmente? O acender da luz. E o interruptor está em algum lugar do mundo mostrando sua existência na internet.

Vive décadas só para a família, vivendo sua vida para o marido, para os filhos, para os netos, para os sogros, para os genros, para os pais, para a casa, para os amigos da família… não, eu não esqueci de falar da vida dela porque a sua própria vida está há décadas num quarto escuro, esquecida, porque há vidas mais importantes que a dela.

Fazia as pessoas e a si mesma acreditarem que era feliz. Era tão convincente nas suas atitudes de mulher feliz que quando um certo ser apareceu na sua vida virtual com o interruptor da sua vida e acendeu a luz do quarto escuro, ela se viu perdida diante da janela, da porta e das chaves.

Depois do susto da luz, conseguiu enxergar a própria vida jogada num canto do quarto agora claro, com seus sonhos de menina cobertos de poeira e teias de aranha. Sabe aqueles filmes que os personagens viajam no tempo sendo tragado num túnel forrado com uma tela de cinema mostrando toda sua história? Pois é, ela estava sendo tragada.

E o interruptor virtual? Mexedor de suas estruturas emocionais, virou lâmpada. Num dado momento a lâmpada mágica, depois um holofote, agora é lanterna. Não que ela não queira mais ver sua vida, pois tudo já foi revelado, mas ela não quer mais ver seu enxergador, quem ela poderia enxergar com outros olhos.

Pensa com desespero em abrir a porta e a janela do quarto e sair correndo para o mundo que deixou de conhecer. Viver perfumes e sabores que sua felicidade não deixava. Voar sem destino combinado em votação familiar. Rachar a estrutura da fortaleza construída numa casca de ovo. Viver sua própria vida, aquela jogada no canto do quarto outrem escuro, com seus sonhos de menina, cobertos de poeira e teia de aranha.

Diante da luz ainda não sabe o que fazer com sua vida, mas agora já tirou a poeira e as teias. Está ali, bem guardada, esperando o momento certo para vive-La… Se não preferir apagar a luz de novo.

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